Trabalho editando edições anotadas de clássicos, o que significa passar boa parte do meu tempo dentro de textos que sobreviveram cem, duzentos, dois mil anos à própria época. E uma coisa fica clara depois de tempo suficiente fazendo esse trabalho de perto: cânone não é um prêmio de qualidade concedido uma vez por um júri respeitável. É um processo de uso continuado, renovado geração após geração, por razões que mudam sem que o texto mude uma vírgula.
Um livro entra para o cânone quando gerações sucessivas de leitores, por motivos diferentes e às vezes até contraditórios entre si, continuam achando necessário voltar a ele. A Ilíada não sobreviveu porque os gregos decidiram, em algum concílio solene, que aquela era a melhor epopeia possível dentre as disponíveis. Sobreviveu porque continuou sendo útil, para pensar guerra, honra, mortalidade, muito depois de os deuses em que ela acredita terem deixado de ser cultuados por qualquer pessoa viva.
T. S. Eliot e a ideia de tradição como conversa viva
T. S. Eliot escreveu, em Tradição e Talento Individual, que nenhum poeta tem seu sentido completo sozinho: seu valor é a apreciação de sua relação com os poetas mortos que vieram antes. E foi além, num movimento que ainda hoje soa contraintuitivo: disse que uma obra nova, se genuinamente nova, altera retroativamente a ordem inteira das obras anteriores, porque nos obriga a reler tudo o que já existia à luz do que acabou de chegar. O cânone, nessa visão, não é uma prateleira fixa. É uma conversa que continua sendo reescrita por quem entra nela mais tarde.
O que derruba um livro do cânone
O oposto também é verdadeiro, e é mais interessante do que parece à primeira vista. Livros saem do cânone não necessariamente porque pioraram (o texto continua exatamente o mesmo, palavra por palavra), mas porque pararam de responder a uma pergunta que os leitores ainda fazem hoje. Uma parte enorme da literatura vitoriana best-seller do século dezenove desapareceu não por falta de qualidade técnica, que muitas vezes era alta, mas porque respondia a ansiedades de classe, de decoro, de religião que deixaram de ser as nossas ansiedades. O texto ficou órfão de pergunta.
Isso devia inquietar mais gente do que inquieta. Escrever pensando em posteridade é, na maioria absoluta das vezes, escrever para uma pergunta que ainda nem sabemos qual é, formulada por leitores que ainda nem nasceram, vivendo circunstâncias que não conseguimos prever com nenhuma precisão. O único jeito razoável de aumentar a chance de sobreviver ao próprio tempo é escrever sobre o que é humano de um jeito específico o bastante para ser lido de novo, e ao mesmo tempo geral o bastante para servir a uma pergunta que talvez ainda não tenha sido feita por ninguém.
Cânone como responsabilidade, não como troféu
Editar clássicos me ensinou a tratar o cânone menos como uma lista de vencedores e mais como um organismo em manutenção permanente. Cada geração de editores, tradutores e leitores decide, de novo, o que ainda merece ser carregado adiante. Isso é trabalho, não veredito automático. E é um trabalho do qual ninguém que escreve hoje deveria se sentir dispensado, porque a pergunta sobre o que vale a pena preservar está sempre em aberto, sendo respondida, silenciosamente, por cada escolha de leitura que fazemos.

