Toda primeira frase que escrevo é provisória, mesmo quando parece definitiva no papel, fechada, sem espaço para dúvida. Aprendi isso depois de reescrever a abertura de um romance sete vezes seguidas, não porque as sete versões anteriores fossem ruins tecnicamente, mas porque só depois de terminar o livro inteiro descobri o que ele realmente estava dizendo por baixo do enredo, e a abertura precisava mentir sobre isso do jeito certo, na medida certa.
Sim, mentir, no sentido preciso do termo. A primeira frase de um bom texto quase nunca revela o argumento inteiro de uma vez. Ela cria uma expectativa específica que o resto do texto vai, aos poucos, complicar, desviar ou trair de um jeito produtivo para quem lê. Se a primeira frase entrega tudo de uma vez, o leitor não tem razão nenhuma para continuar: a promessa já foi cumprida cedo demais, e o resto vira redundância.
Kafka e a frase que não explica, convoca
‘Ao despertar certa manhã, depois de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.’ A primeira frase de A Metamorfose, que tive o privilégio de traduzir integralmente, não explica nada do que vai acontecer depois. Não justifica, não prepara, não amortece o choque. Apenas afirma o impossível com o mesmo tom neutro que se usaria para anunciar que choveu de manhã, e deixa o leitor sozinho com a tarefa de decidir o que fazer com aquilo. É uma abertura que não promete resposta. Promete apenas que a pergunta vai continuar incomodando por muitas páginas.
A função real da abertura
Uma abertura boa não precisa ser bonita nem chocante para funcionar. Precisa criar uma tensão específica, uma pergunta implícita que só o restante do texto vai, aos poucos, responder ou recusar-se a responder de forma satisfatória. ‘Comecei a escrever há vinte e cinco anos’ não é uma frase chocante em si mesma. Mas gera uma pergunta imediata na cabeça de quem lê: e o que aconteceu nesses vinte e cinco anos que justifica contar essa história justamente agora? Essa pergunta, ainda que discreta, é o motor que puxa o leitor para o segundo parágrafo.
Por isso escrevo a abertura por último, quase sempre, mesmo que ela apareça primeiro no texto final entregue ao leitor. É impossível prometer direito aquilo que eu próprio ainda não terminei de escrever e entender. A primeira frase que o leitor vê é, com frequência, a última que eu decidi de fato manter.

