Já ouvi essa frase sobre um texto meu, publicado depois de duas décadas escrevendo profissionalmente para diferentes públicos e formatos. A crítica não era ao conteúdo nem ao argumento em si. Era ao estilo: clareza, cadência, densidade sem arrogância aparente. Por um segundo me senti ofendido. Logo depois, perplexo, porque o que estavam acusando de artificial era exatamente aquilo que levei décadas inteiras para construir com esforço deliberado.
Não foi um algoritmo que deixou aquele texto com cara de inteligência artificial. Foi o tempo. Foi um novo padrão de desconfiança, inaugurado não pelas máquinas em si, mas pela nossa própria dificuldade coletiva em lidar com elas. Antes, um texto bem escrito era apenas um texto bem escrito, ponto final. Hoje, um texto bem escrito é, primeiro, suspeito, e só depois, talvez, admirado, se sobreviver ao primeiro filtro de desconfiança.
A suspeita como novo imposto sobre a boa prosa
Isso cria um efeito perverso, que já observei em colegas de ofício: escritores começam, conscientemente ou não, a introduzir imperfeições artificiais só para parecer mais humanos diante do leitor desconfiado. Uma frase mais torta aqui, uma repetição desnecessária ali, uma informalidade calculada que não nasceu de espontaneidade nenhuma. É uma forma nova, e um tanto grotesca quando se para para pensar nela, de performance de autenticidade, tão fabricada quanto aquilo que tenta desesperadamente evitar parecer.
Sartre e o olhar do outro que nos transforma em objeto
Sartre falava do olhar do outro como algo capaz de nos transformar, contra a vontade, em objeto: sob o olhar alheio, deixo de ser sujeito da minha própria experiência e passo a ser coisa avaliada, classificada, julgada de fora. A suspeita generalizada de que todo texto bom pode ter sido gerado por máquina produz algo parecido no campo da escrita: o autor deixa de ser, primeiro, alguém que pensa e sente, e passa a ser, primeiro, um suspeito a ser peneirado, cuja humanidade precisa ser provada antes mesmo de o conteúdo ser considerado.
Tenho pena, não como condescendência, mas como constatação sincera, de quem começa a escrever agora, numa época em que nunca será possível provar, de forma definitiva e incontestável, que um texto bom saiu inteiramente de uma cabeça humana isolada. A geração à qual pertenço teve o privilégio de errar em público sem ser questionada sobre a própria existência autoral a cada parágrafo publicado. Essa geração mais nova não tem mais esse luxo disponível. E isso muda, de um jeito ainda difícil de medir com precisão, o próprio significado de aprender a escrever pela primeira vez.

