Nunca ganhei um concurso literário, mas também nunca fui um concurseiro fervoroso.
Talvez no começo da minha carreira de escritor, quando eu ainda acreditava em duendes e Papai Noel, arrisquei-me mais, enviando contos para algumas dúzias de concursos.
Um deles apareceu numa antologia, custando-me 50 reais para incluí-lo lá. Outro deles ficou em sexto lugar num concurso do Paraná. Mas ganhar mesmo, nunca.
Perder nestes concursos literários vagabundos, que pagam pouco ou nada, nunca me irritou muito. O que me incomodava para valer era perder nos grandes, naqueles prêmios apetitosos valendo alguns milhares de reais.
Lembro-me como se fosse hoje quando participei pela primeira e única vez do Concurso Cruz e Souza (então, pensava que se chamava Souza Cruz, sem entender bem a relação entre uma fábrica de cigarros e o mundo literário). Enviei uma antologia de contos e aguardei ansioso pelo resultado, com premiação de 60 mil reais.
Na época, não tinha muito senso crítico para avaliar meu próprio trabalho, assim julgava como ótimos aqueles contos péssimos.
Revoltei-me ao descobrir o nome do ganhador: Miguel Sanchez Neto, um autor já estabelecido.
Foi o primeiro momento que constatei que, nestes prêmios grandes, participam de escritor mendigo a best-seller. E, geralmente, são os figurões que levam a bolada.
Mais recentemente, fui um das centenas de escritores que enviaram obras para o concurso “Os Melhores Jovens Escritores Brasileiros”, promovido pela revista britânica Granta. Eles escolheriam os 20 melhores autores e, mesmo sabendo que não sou uns dos 20 melhores, talvez nem um dos 300 melhores (mas possivelmente entre os 3 mil melhores), lancei a sorte com um trecho de um romance experimental.
A minha expectativa era a de que, nesta seleção, houvesse algum tipo de chacoalhão no establishment, uma renovação no cenário, a descoberta de alguns grandes talentos ocultos, tudo que o mundo da literatura brasileira sempre anseia.
Mas não! Sempre o óbvio, sempre esta insuportável obviedade.
Ontem, saiu o resultado do concurso Benvirá, da editora Saraiva, com prêmio de 30 mil reais e publicação do livro.
Ano passado, este mesmo concurso descobriu um promissor autor estreante e, provavelmente, vários estreantes viram aí a oportunidade. 30 mil reais não é pouca grana, ainda mais para um escritor. Se um autor ganhar 3 reais por cada exemplar, ele precisa vender 10 mil livros para angariar este montante.
10 mil livros é uma vendagem excelente mesmo para vários autores conhecidos, ainda mais para um estreante.
Só que, neste ano, o establishment venceu uma vez mais, optando por um veterano.
Quando você descobre o número de obras que este concurso recebeu, 1500 originais, a primeira coisa que se pensa é: “quem é o filho da puta que consegue ler mil e quinhentos originais?”
Eu não consigo. Num ano bom, leio uns 30 ou 40 livros, mas, no geral, se houver lido uns 12 já estou no lucro.
Então surge a desconfiança. Algum jurado conseguiu ler e analisar com atenção cada um destes quase 2 mil manuscritos? E mesmo se descartássemos aquelas obras realmente mal escritas, sobrando, digamos, umas 200, ainda assim, quem conseguiria lê-las todas?
O problema dos concursos literários é que não eles têm transparência alguma. Quem determina quais são os 20 ou 30 melhores livros dentre 2 mil? Quais são os critérios? O que eles estão procurando?
Ninguém sabe, e ninguém jamais saberá, pelo menos não deste lado dos escritores.
Ainda estou aguardando o resultado de alguns concursos grandes este ano, certo que também não ganharei. Agora, se ocorrer a improbabilidade matemática de eu levar algum destes prêmios, vocês serão os primeiros a saber.
Contudo, talvez tenhamos de esperar mais umas duas ou três décadas para isto, pois concursos literários parecem ter uma estranha atração por veteranos.
