Microcontos e a dissolução da narrativa

(Foto: http://www.flickr.com/photos/49333775@N00/4822184752/)

A moda atual entre os escritores são os micro e os nanocontos, que encontrou na internet uma mídia privilegiada.
Através de histórias miniaturizadas, disseminadas através das redes sociais, espalhamos fragmentos de Literatura para quem tiver olhos para ler.

Um romance e suas centenas de páginas exigem do leitor tempo, paciência, atenção e concentração. Mesmo na leitura descompromissada, no metrô, no ônibus ou no avião, uma narrativa longa demanda do leitor a compreensão e a disposição para galgar o enredo e acolher os personagens. Pois uma narrativa longa deriva do desenvolvimento, da elaboração da psiqué de seus personagens e da coerência estrutural da obra.

Em oposição, temos o conto ou a narrativa breve, focalizada em um evento, com poucos personagens, pouca ambientação, num intervalo breve de tempo. É da concisão que um conto se constrói e, em algumas teorias, uma definição vaga para este gênero é de um texto ficcional que possa ser lido de uma só vez, apesar de haver vários casos de contos longos o suficiente para exigirem duas ou mais incursões.

Um gênero muito mais recente, aparentado do provérbio e do aforismo, é o microconto ou o nanoconto: a súmula máxima da narrativa.
Em muitos microcontos, temos apenas um ou dois personagens, quase sem ambientação e, frequentemente, com desenvolvimento brevíssimo do enredo, praticamente inexistente. A maioria dos nanocontos são apenas instantâneos, ou vislumbres da vida, como quem olha de passagem.
É exatamente neste ponto que surge o maior dos mal-entendidos…

Vários autores confundem brevidade com facilidade, quando é justamente o oposto. A brevidade é a técnica mais difícil de se dominar, uma arte para pouquíssimos.
O microconto é a hipérbole do conto; não pode haver uma vírgula, um artigo, um pronome, um adjetivo em excesso. Uma linha ou duas desnecessárias é uma atrocidade imperdoável, e até mais do que isto, um microconto que não atinja o coração ou a mente do leitor, reverberando por horas ou dias, não deveria ter sido escrito, não tem razão para existir.

No entanto, o domínio da escrita de microcontos assemelha-se, em parte, ao do humor e da concepção de chistes, inclusive na própria temática e desenvolvimento, muitas vezes em tom cômico. É através da escrita, divulgação e da recepção dos leitores que o autor refina sua técnica, detectando que espécie de micronarrativas funcionam melhor. E isto se dá à vista do leitor, com sucessos e fracassos narrativos dividindo o mesmo espaço.

Por outro lado, por melhor que um microconto seja, ao disputar atenção com várias outras atualizações do mundo virtual, como fotos, vídeos, músicas, piadas e textos não literários, a vida útil de uma narrativa brevíssima também é muito curta. É necessária uma produção frenética para a fidelização dos leitores e a repetição torna-se quase inevitável.

Dedicar uma carreira literária a microcontos me parece um grande equívoco, muito maior do que para poemas e contos mais longos, que desde há muito é considerado por alguns um suicídio literário, com possibilidade próxima de zero de publicação através de grandes editoras.
Apesar de toda a empolgação em torno das micronarrativas e de não ser um gênero passageiro – inclusive, talvez o gênero passageiro seja o próprio romance, em vias de extinção, quem sabe? -, não vejo como um autor consiga desenvolver um personagem interessante em tão poucas linhas.

A princípio, lemos porque nos identificamos, porque nos vemos retratados na história, porque gostaríamos de ser como aquele herói ou mocinha, ou porque a Literatura nos abre portas para mundos que não conhecemos.
Fragmentos da realidade, que nos toma segundos para lê-los, também nos proporcionam fragmentos de experiência. Sem a imersão, sem o aprofundamento, perdemos também boa parte do que torna a Literatura uma atividade tão interessante.

Por fim, a falsa sensação de facilidade das micronarrativas tem atraído uma legião de escritores que não teria a competência para narrativas mais longas, mas que também tem pouca ou nenhuma competência para as narrativas breves.
O fato é que alguns candidatos a escritores não merecem nem cento e quarenta caracteres.