Um modelo de linguagem é treinado para prever a continuação mais provável de um texto, dado tudo aquilo que já foi escrito antes dele na sequência. Isso significa que, estruturalmente, por desenho mesmo, ele tende ao centro estatístico da linguagem, à frase que mais pessoas, em mais contextos diferentes, tenderiam a escrever naquele ponto exato. É uma tecnologia construída sobre médias, não sobre desvios propositais.
Estilo, no sentido literário mais estrito, é quase o oposto exato disso. É o desvio consistente em relação à média, repetido o suficiente ao longo de um corpo de trabalho para virar reconhecível como assinatura pessoal. Um escritor com voz própria escreve, sistematicamente, as frases que a maioria não escreveria naquele mesmo ponto, não por acaso ou capricho, mas porque enxerga o mundo de um jeito específico o bastante para que essa diferença apareça, frase após frase, texto após texto, ao longo dos anos.
Nietzsche e o estilo como fisiologia
Nietzsche escreveu, numa carta, que queria fazer filosofia com um martelo, e o mesmo espírito percorre sua prosa: frases curtas e cortantes, seguidas de repente por períodos longos e sinuosos, um ritmo que imita, quase fisicamente, a respiração de alguém que discute em voz alta consigo mesmo. Ele dizia que o estilo deveria ter relação com a fisiologia de quem escreve, com o pulso, com a respiração, com o corpo específico por trás da página. Um modelo de linguagem não tem pulso nenhum para imitar. Tem apenas a média estatística de milhões de pulsos alheios, misturados até perder qualquer assinatura individual reconhecível.
O risco de escrever para a média
Isso explica um fenômeno que comecei a notar em textos assistidos por inteligência artificial sem supervisão crítica forte por trás: eles tendem a convergir para um tom parecido, uma cadência parecida, independentemente de quem os encomendou ou de qual assunto tratam. Não porque a ferramenta seja ruim em si mesma. Porque ela está, por desenho estrutural, buscando sempre o caminho mais provável dentro do idioma, e o caminho mais provável é, quase por definição matemática, o menos individual de todos os caminhos disponíveis.
A lição prática não é evitar inteligência artificial por princípio. É usar essa tendência conhecida à média como um alarme interno: sempre que um trecho sair bom demais, rápido demais, sem esforço nenhum perceptível da minha parte, vale a pena desconfiar se aquilo é realmente a minha voz ou é apenas a frase mais provável do idioma, disponível para qualquer pessoa que fizesse a mesma pergunta. Voz própria é, precisamente, aquilo que resiste, com esforço deliberado, à tentação sempre presente da frase mais provável.

