Plágio, influência e o mito da originalidade absoluta

Plágio, influência e o mito da originalidade absoluta

Traduzo autores mortos há séculos e escrevo textos próprios na mesma semana, muitas vezes no mesmo dia, e isso me obriga a pensar, com uma frequência incomum para a maioria das pessoas, onde exatamente termina a influência legítima e começa o plágio propriamente dito. A resposta a que cheguei, depois de anos nesse vaivém constante entre vozes alheias e voz própria, é que a linha não está onde a maioria costuma imaginar de forma intuitiva.

Originalidade absoluta é um mito relativamente recente, um produto direto do Romantismo, da ideia de gênio isolado criando do nada absoluto, sem dever nada a ninguém que veio antes. É um mito que a própria história da literatura contradiz o tempo inteiro, em quase todo grande nome que se examine com cuidado suficiente. Shakespeare reescreveu enredos que já existiam havia décadas em outras peças e crônicas. Montaigne praticamente inventou o ensaio moderno citando, em quase cada página que escreveu, alguém que veio muito antes dele. Nenhum dos dois é menos original por causa disso. A originalidade nunca esteve, de fato, no material bruto de partida. Está sempre no que se faz com ele depois.

Borges e o Quixote reescrito palavra por palavra

Borges escreveu um conto sobre um autor fictício, Pierre Menard, que se propõe a reescrever o Quixote, não copiando, mas recriando, palavra por palavra, idêntico ao original de Cervantes, através de um esforço pessoal genuíno. O resultado, argumenta o narrador do conto com ironia perfeita, é um texto mais rico do que o original, porque as mesmas palavras, escritas séculos depois, num contexto histórico completamente diferente, carregam um sentido novo, impossível de existir na versão de Cervantes. É uma forma elegante de dizer algo que continua verdadeiro: nenhum texto, por mais que repita palavras alheias, chega inteiramente vazio de quem o produziu, ou de quando foi produzido.

Onde a linha realmente está

Plágio não é, rigorosamente, usar uma ideia que já existia antes, porque toda ideia, examinada com honestidade, já existiu antes de alguma forma parcial. Plágio é apagar deliberadamente o trabalho de transformação envolvido, apresentar como inteiramente seu algo que você não processou, não questionou, não reorganizou através de uma perspectiva genuinamente própria. Influência confessa a dívida através da própria forma visível do texto que produz; plágio, ao contrário, a esconde de propósito.

É por isso que traduzir, de forma paradoxal, me ensinou mais sobre originalidade do que qualquer aula formal de criação literária já ensinou. Traduzir é a forma mais honesta de influência que existe: você admite, já na capa do livro, que aquele pensamento não nasceu de você, e ainda assim precisa encontrar, frase por frase, uma voz que seja inegavelmente sua para carregá-lo até o português vivo de hoje. A originalidade não está em nunca dever nada a ninguém que veio antes. Está, sempre, em como você decide pagar essa dívida inevitável.

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