Arte não precisa ser bela para ser necessária

Arte não precisa ser bela para ser necessária

Há uma confusão antiga, que ainda ronda quem escreve, entre arte e conforto. A ideia de que uma obra precisa deixar quem a consome numa posição melhor, mais bonita, mais harmônica do que estava antes de começar a leitura. É uma expectativa que a própria história da arte contradiz de forma quase sistemática, sempre que se olha com atenção para o que realmente perdura.

Os textos que mais me marcaram, e escrevi sobre boa parte deles, de propaganda nazista a fanatismo digital, não são bonitos. São necessários porque encaram algo que preferiríamos, instintivamente, não encarar, e nos deixam, ao final, mais equipados para reconhecer aquilo quando reaparecer na vida real, disfarçado de outra coisa. A dissertação que escrevi sobre a retórica da desumanização não tinha uma única frase bonita nela, no sentido convencional do termo. Tinha, espero sinceramente, frases úteis.

Adorno e a impossibilidade da beleza fácil depois de Auschwitz

Theodor Adorno escreveu que escrever poesia depois de Auschwitz seria bárbaro, uma frase que ele próprio depois relativizou, mas que continua útil como provocação: existe um tipo de beleza que, diante de certos fatos, soa obscena, porque finge que o horror pode ser transformado em ornamento sem perda de sentido. Não significa que a arte deva parar de existir diante do horror. Significa que ela precisa encontrar uma forma que não traia, pela suavidade, aquilo que está tentando dizer.

Beleza como anestesia

Existe uma beleza que funciona como anestesia, que embala em vez de acordar quem a recebe. Não é inútil, tem seu lugar legítimo no mundo, mas não é a única função possível da arte, e tratar como se fosse produz uma literatura incapaz de tocar no que realmente dói, no que realmente importa. A obra que só busca ser bonita corre o risco de virar decoração de bom gosto, sem nenhuma fricção real com o mundo bruto que a produziu e que ela deveria, de alguma forma, responder.

Necessidade, para mim, é a métrica que substitui beleza quando beleza falha como critério de avaliação. Um texto necessário é aquele que, depois de lido, muda ligeiramente a forma como você presta atenção no mundo ao seu redor, mesmo que ele nunca tenha tentado, uma única vez ao longo de todas as suas páginas, ser bonito no sentido convencional da palavra.

O risco inverso: a necessidade como desculpa para o descuido

Isso não deveria virar desculpa para o descuido formal, o que às vezes acontece quando um autor se convence de que a urgência do tema dispensa o trabalho de escrever bem. Necessidade e forma cuidada não se excluem. O melhor do que já li sobre horror histórico é, ao mesmo tempo, necessário e tecnicamente preciso, porque a precisão é justamente o que impede o leitor de escapar pela porta lateral do texto malfeito, fácil de descartar.

A Perfeição Sem Alma

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