Conselhos sobre a Arte de escrever contos, por Roberto Bolaño

(fonte das imagens: http://biblioklept.org/2010/09/07/writing-short-stories-roberto-bolano/)

Roberto Bolaño
trad.: Henry Alfred Bugalho



Como já tenho quarenta e quatro anos, darei alguns conselhos na arte de escrever contos:

1 – nunca aborde os contos de um em um, honestamente, alguém pode escrever o mesmo conto até o dia de sua morte.

2 – o melhor é escrever contos de três em três, ou de cinco em cinco. Se tiver energia suficiente, escreva-os de nove em nove ou de quinze em quinze.

3 – cuidado: a tentação de escrevê-los de dois em dois é tão perigosa quanto dedicar-se a escrevê-los um por um, mas traz em seu interior o mesmo jogo sujo e pegajoso dos espelhos amantes.

4 – Tem de ler Horacio Quiroga, tem de ler Felisberto Hernández e tem de ler Jorge Luis Borges. Tem de ler Rulfo, Monterroso e García Márquez. Um contista que tiver apreço por sua obra jamais lerá Cela ou Umbral. Sim que lerá Cortázar e Bioy Casares, mas de modo algum a Cela ou Umbral, nem pensar.

5 – repetirei mais uma vez caso não tenha sido claro: Cela ou Umbral, nem pensar.

6 – um contista deve ser valente. É triste reconhecê-lo, mas é assim.

7 – os contistas costumam se gabar de ter lido Petrus Borel. Na verdade, é notório que muitos contistas tentam imitar a Petrus Borel. Grande erro! Deveriam imitar o modo como Borel se veste. Mas a verdade é que de Borel não sabem nada! Nem de Gautier, nem de Nerval!

8 – Bom: cheguemos a um acordo. Leiam a Petrus Borel, vista-se como Petrus Borel, mas leiam também Jules Renard e Marcel Schwob. Sobretudo, leiam Marcel Schwob, então passem a Alfonso Reyes e daí para Borges.

9 – a verdade é que com Edgar Allan Poe todos teríamos de sobra.

10 – Pensem sobre o nono ponto. Deve-se pensar sobre ele. Se possível, de joelhos.

11 – livros e autores altamente recomendados: Do Sublime de Pseudo-Longinus; os sonetos do desafortunado e valente Philip Sidney, cuja biografia escreveu Lorde Brook; The Spoon River Anthology (1916) de Edgar Lee Masters; Suicidios Ejemplares (1991) de Enrique Vilas-Matas; e Mientras Ellas Duermen (1990) por Javier Marías.

12 – leiam estes livros e também a Anton Tchekov e Raymond Carver, um dos dois é o melhor contista que nos há dado este século.

Texto original em: http://litterarius.com.es/cons_bolano.htm