Durante quase uma década, li freneticamente tudo aquilo que caía em minhas mãos.
Li ficção, poesia, teoria literária, Filosofia, Psicologia, História, Teologia, sobre a Teoria do Caos, sobre viagens espaciais, acupuntura, medicina, Física, biografias, auto-ajuda, espírita, best-sellers, outros que não venderam tão bem, clássicos e contemporâneos. Li catataus de mais de mil páginas e livrinhos de bolso. Li a Bíblia do cabo a rabo.
Li até alguns livros que me levam hoje a indagar: por que perdi meu tempo?
Já não tenho mais este ímpeto. Nos últimos anos, os livros que abandonei são muito mais numerosos do que aqueles que consegui terminar de ler.
Anteriormente, largar um livro no meio era uma heresia imperdoável para mim. Mesmo se fosse ruim, chato, sem propósito, eu me sentia numa obrigação interior de chegar ao ponto final.
Hoje, não mais.
A última obra que consegui ler do começo ao fim foi uma das incontáveis releituras de “Ficções” de Jorge Luis Borges. Conheço muito bem alguns dos contos deste volume, mas sempre me surpreendo com suas histórias e, principalmente, com suas entrelinhas.
Este é o tipo do livro que tenho buscado no momento, daquele que nos transporta para algum lugar misterioso para além das palavras, que vive mesmo quando a leitura foi concluída.
São obras raras, e tenderão a rarear ainda mais em nossa época.
Jamais concluí a leitura de “Clube da Luta” de Chuck Palahniuk, apesar de sempre me prometer que o farei. Cheguei a ler o primeiro capítulo de “50 Tons de Cinza” para saber a razão de tanto furor, mas não dá, é um livro tão ruim que eu não usaria nem para a limpar a bunda se fosse pego desprevenido por uma caganeira na beira da estrada. Até “Grande Sertão: Veredas” repousa na prateleira, lido até a metade, sendo revisitado duas vezes ao ano para rápidas leituras, mas a conclusão dele parace ser inatingível.
Talvez a primeira obra que eu consiga ler na íntegra neste ano seja “The Friends of Eddie Coyle”, do americano George V. Higgins, com uma escrita tão única, agradável e inusitada, que todo fim do dia me pego lendo um capítulo. Mesmo sendo um livro curto, já me tomou algumas semanas; era o tipo de obra que eu leria em dois dias algum tempo atrás. Está disputando cabeça a cabeça com “A Teoria do Romance” de Lukacs, também numa leitura a passo de tartaruga.
O fato é que a leitura é uma prática sobrevalorada.
Há um mito que quem lê muito, independentemente da qualidade da obra, será alguém mais inteligente, ou pelo menos mais culto.
Não se engane, quem lê porcaria não é muito diferente de quem assiste ou ouve porcarias.
Ler não é nenhuma tarefa excepcional, que distingue os gênios da boiada. Ler é uma das competências da linguagem, que não torna ninguém melhor do que os outros.
Ler revista de fofocas não o tornará um intelectual. Ler livrinhos eróticos das bancas de jornal também não. Na verdade, tampouco a Filosofia ou qualquer outra obra de alguma disciplina complexa e sofisticada o tornará uma pessoa melhor, pois ler nem sempre é compreender, e compreender nem sempre implica em aprendizado real.
Inclusive, não devemos sequer confundir cultura e conhecimento com inteligência. Algumas das pessoas mais insuportáveis e intolerantes que conheci eram bastante cultas, mas sem um pingo de inteligência.
Hoje, não tenho mais paciência para certos livros. Não quero ler e reler as mesmas histórias que retornam num ciclo infindo de clichês e enredos previsíveis, mas também não pretendo me esforçar para deglutir um livro insosso, por mais cultuado que seja.
Mostre-me uma grande obra que eu a seguirei, mas tem de ser daquelas que nos consomem, que se injetam em nossas veias e transformam a nossa visão de mundo. Não peço menos do que isto.
Nosso tempo é limitado e precioso, e abandonar uma leitura pela metade pode ser um ato até muito mais significativo do que o da escolha do que leremos.
A biblioteca é vasta, mas o tempo é escasso.
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E você tem alguma recomendação de um bom livro para que eu o leia até a metade?
