Recentemente, remexendo meus arquivos, descobri uma interessante estatística pessoal: para cada livro que concluí, há duas obras inacabadas.
Sendo mais específico, já escrevi na íntegra 7 obras longas, no entanto, tenho 15 obras inacabadas, ou seja, concluo aproximadamente 33% dos livros que já comecei a escrever.
Isto porque estou falando apenas daqueles livros que, de fato, iniciei a escrita, para os quais redigi parágrafos ou algumas páginas, pois, se fosse contar também somente as ideias para contos ou romances, esta proporção seria muito mais desigual.
Investir ou não seu tempo num projeto?
Você teve alguma excelente ideia para um livro, elaborou em sua mente ou no papel alguns pontos mais importantes da trama e também desenvolveu as características de alguns personagens.
E agora, como saber se vale investir seu tempo neste projeto?
Antes de tudo, saiba que não existem garantias algumas.
1 – você não tem como estar certo que começará e acabará o livro; e
2 – nem que seu livro será tão bom quanto você o concebeu inicialmente.
Estes são dois problemas distintos, com soluções diferentes.
No primeiro caso, você deve julgar se o projeto o estimula o bastante para você dedicar dias, semanas, meses e, às vezes, anos para desenvolvê-lo.
Nenhum livro se escreve sozinho e, apesar de haver exceções, são raros os casos de autores que conseguem produzir boas obras em poucos dias.
Se você escrever num ritmo frenético, produzindo uma dezena de páginas por dia, você levará em torno de umas duas ou três semanas para concluir um romance.
No entanto, se você for mais lento, digamos escrevendo uma página por dia, você precisará de uns seis meses para pôr o ponto-final em sua obra.
É fundamental também, antes de começar a escrever um livro, que você dedique um horário específico somente para isto. Se você não criar disciplina, você escreverá algumas páginas no primeiro dia, não escreverá nada no segundo nem no terceiro e, depois, terá perdido a mão, abandonando o projeto.
No segundo caso, se você terminou de redigir seu livro e ele não o agradou, o mais simples é deixá-lo descansar alguns meses e relê-lo depois.
É neste momento em que se inicia o trabalho de reescrita e revisão, quando você vai cortar as arestas, reduzir cenas mais longas e tediosas, desenvolver melhor um diálogo, dar uma sapecada na obra.
O trabalho de reescrita é tão lento e oneroso quanto o próprio trabalho inicial de escrita.
Demorei 10 anos reescrevendo o meu primeiro romance até ficar com a sensação de uma obra bem feita. 10 anos!
A escrita é um exercício de paciência e escrever um romance é uma tarefa frase após frase, parágrafo após parágrafo, é um ato de dedicação e perseverança.
Persistência é o segredo.
Quando abandonar um projeto pela metade?
Mas se você já começou a escrever e, lá pela metade do livro, perdeu o fogo, desapareceu aquele ânimo que o motivou a iniciar o projeto?
Isto é bastante comum e confesso ser muito frustrante para um escritor.
Pois se você escreve uma ou duas páginas e abandona o livro, você perdeu dois ou três dias de trabalho e é isto. Toca adiante para outro projeto!
Todavia, se você já escreveu 100 ou 200 páginas de um livro e, neste ponto, está começando a duvidar do que já produziu, esta é uma situação conflituosa para um autor.
Durante a escrita do meu segundo livro, um romance histórico, quando já estava na metade dele, li alguns livros de História que me fizeram mudar totalmente o rumo da trama.
Eu tinha duas opções: continuar na linha inicial, mesmo sem acreditar mais nela, ou abandonar tudo e reescrever o livro desde a primeira linha.
Escolhi a segunda alternativa. Foi muito mais trabalhoso, mas o resultado final ficou mais próximo do que eu esperava.
Não dá para investir seu tempo e labor num projeto no qual você não acredita mais.
No momento, estou escrevendo a segunda versão de um romance que iniciei em 2008. A primeira versão era com uma narrativa muito mais simples e ágil, mas não tinha a minha cara.
Depois de ter escrito umas 120 páginas neste tom, decidi que não dava mais, que aquela obra não me representava. Então, recomecei do zero, reutilizando um ou outro capítulo da primeira versão, mas com uma abordagem completamente diversa.
Repito: não dá para escrever um livro se sua alma não estiver ali.
Quando você atinge esta espécie de dilema – continuar escrevendo ou desistir? -, você precisa pesar as duas possibilidades: posso continuar o livro e depois consertá-lo na revisão, ou devo voltar para a primeira página e fazer tudo diferente?
Esta é uma decisão que somente você pode tomar.
O peso da desistência
Ao abandonar um projeto, a primeira sensação é de fracasso. Você se sentirá pequeno e questionará seu talento como escritor.
“É realmente esta a minha vocação?”, você se perguntará.
A melhor terapia para estas indagações é mergulhar em outro projeto, ou recomeçar o malfadado livro que você acabou de abandonar, e trabalhar.
Assim que você puser o ponto-final num livro, por melhor ou pior que ele seja, você se sentirá reconfortado, e isto lhe dará forças para projetos futuros.
Tudo que você precisa é escrever um livro do começo ao fim. Depois disto, você terá a certeza de que é capaz. Mesmo desistindo ou fracassando posteriormente, aquele livro concluído lhe dará força para começar e concluir outros projetos futuros.
Por fim, você sempre poderá retomar os livros ou projetos abandonados um dia, caso aquela ideia esteja mais madura e sofisticada.
Poder retornar a uma obra inacabada, com uma visão mais lúcida sobre ela e com maior experiência, e concluí-la é também uma grande desafio para qualquer escritor. E muitas vezes resulta em livros extraordinários.
