Escrevendo Ficção com The Gotham Writers’ Workshop (Lição 1) – parte 2

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Traduzido por: Henry Alfred Bugalho

Lição 1: A Verdade sobre Ficção – parte 2

Nós nos importamos com os Personagens

Personagens são, literalmente, o elemento humano no interior das histórias — a parte que vive, respira, ri e chora. Não existe uma história que não possua, pelo menos, um personagem, mesmo que este seja um cavalo, como no conto de Bruce Jay Freedman, “Post-Time”, ou computador HAL, de 2001: Uma Odisséia no Espaço de Arthur C. Clarke.
Quando nos apaixonamos por uma história, na maioria das vezes, amamos os personagens, não detalhes do enredo, diálogos brilhantes ou o estilo original do autor. O que nos lembramos das histórias são os personagens, e são por eles que voltamos a ler. Nós nos comovemos com a condição fundamental deles, porque ela é também a nossa. Eles são pessoas, e nós somos pessoas. Nós nos relacionamos.

Talvez a melhor razão para lermos ficção seja conhecer personagens. Ao lermos sobre pessoas em ficção, nós vislumbramos a natureza humana. Estranhamente, ficção pode nos ofertar tais vislumbres com maior propriedade do que a vida cotidiana.

Por exemplo, o comportamento de sua colega de trabalho pode não fazer sentido para você, pois você não sabe, exatamente, como ela cresceu, muito menos o que ela está pensando em determinado momento. Todavia, é possível compreender um personagem complexo, como Sethe, na obra Beloved de Toni Morrison, exatamente porque nos é dado acesso ao passado dela e à sua vida interior. Este vislumbre pode, por outro lado, ajudar-nos a compreender e nos comover com nossos próximos, humanos de carne-e-osso, melhor. Até mesmo àquela intrigante colega de trabalho.

Você já leu o romance O Apanhador no Campo de Centeio de J. D. Salinger? Você se lembra dele? (É claro que sim. É um dos mais idolatrados livros de todos os tempos.) Tudo bem, agora, do que você se lembra do romance? Você pode resumir o enredo? Provavelmente não. Você consegue descrever Holden Caulfield? Sim! Talvez, você se lembre de seu chapéu vermelho de caça (ele o usa virado para trás) ou como ele chama tudo de “enrolação” (phony). Você se lembra como ele se relaciona com a irmã pequena, Phoebe, e o intenso sentimento de solidão de Holden, expressado por sua identificação com os patos do Central Park? Muitos leitores sentem como se houvessem conhecido, de fato, Holden Caulfield, um dia. Talvez você também tenha sentido isto.

Mesmo que você tenha lido O Morro dos Ventos Uivantes duas ou três vezes, pode ser que você tenha se perdido em tudo que acontece, especialmente na complicada segunda parte. Mas você nunca, nunca se esquecerá do ardente amor entre Catherine e Heathcliff.

Já mencionamos Dickens antes. Ao lado do dramaturgo Shakespeare, ele é, provavelmente, responsável pelo maior número de personagens marcantes em língua inglesa. Pense em Sra. Havisham de Grandes Esperanças, assombrada pelo malfadado dia do casamento. Ou Madame Dafarge, notoriamente tricotando enquanto a Revolução Francesa nascia, em Uma História de Duas Cidades.

Esta atração pelos personagens é o motivo pelo qual escritores bem-sucedidos de romances policiais trazem novamente o protagonista várias vezes. Esquecemo-nos rapidamente do enredo intrincado de qualquer romance de mistérios, mas nós nos lembramos de Sam Spade, Kinsey Millhone e Easy Rawlins — e queremos passar mais tempo na companhia deles.

O Grande Gatsby de F. Scott Fitzgerald agrada de várias maneiras, mas, para a maioria dos leitores, o aspecto mais marcante e divertido deste grande romance são os personagens. Nos primeiros três capítulos, há um desfile de personagens que você pode gostar ou não, mas aos quais dificilmente você se esquecerá tão cedo.

Há Jay Gatsby, um dos mais inesquecíveis personagens em toda literatura. Se você conseguiu chegar no capítulo 3, há grande chance de que este homem tenha gravado um forte impressão em você, mesmo que você tenha tido acesso a poucos vislumbres dele. Ao continuar lendo o romance, perceba quão dimensional e fascinantes este personagem se torna, capítulo após capítulo. Ele é simpático, mas de algum modo trapaceiro. Ele é ricamente descrito, mas nunca completamente conhecível. Ele é muito humano, e muito maior que a vida. Podemos encontra Gatsby no mundo ao nosso redor. Ele é uma lenda americana — o self-made man. Hoje, é difícil não pensar em Gatsby quando se ouve sobre celebridades como Ralph Lauren, Martha Stewart ou Bill Gates.

Quando você terminar de ler o livro, mesmo então, Gatsby não será esquecido. Ele se debruça sobre a memória, de pé no gramado, abrindo os braços em direção à luz verde no fim do cais, sonhando sobre as infinitas possibilidades do futuro.

(continua…)

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